achei que todo cidadão, ao ser acusado de um crime, deve ter seus direitos lidos. eu votei nas últimas eleições e já pago algus poucos impostos. também tenho ficha policial e apareço no censo como um dos mais de 190 milhões de habitantes do Brasil, de forma que sempre me considerei cidadã.
mas alguém decidiu que não. que de fato, tudo que eu dissesse poderia e seria usado contra mim, mas não me deu o direito de um advogado. se bem me lembro dos meus limitados conhecimentos de direito, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. então a questão não é o réu, mas a autoridade que o julga. mas que autoridade é essa?
as pessoas acham que sabem muito. o limite do certo e do errado, do bom e do ruim pra todos os outros. não tem um ditado que diz que quando a gente aponta um dedo pra alguém tá apontando três pra si mesmo? todo mundo julga os outros e isso é fato. mesmo que seja o mínimo: fulano é imaturo, bobo, engraçado. mas só alguns têm a capacidade de julgar, sentenciar e condenar. e foi assim.
se amar é prisão, acreditar no amor é solitária. …assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, mas livrai-nos do mal, amém.
“we’ve got it wrong, but it’s all right. the more things seem to change, the more they stay the same.”
dia desses no ônibus, voltava pra casa pensando nas mesmas coisas de sempre, me perguntando, me lamentando, me cansando das respostas e querendo morrer. tentava encontrar uma justificativa racional pra tudo isso, achando que assim, seria mais fácil me livrar de uma vez. tipassim, causa e consequência.
na primeira parada que me chamou a atenção, um casal de velhinhos na porta do hospital subiu no ônibus e antes que falassem qualquer coisa o motorista disse: “tem que pagar antes. não aceito carteirinha de idoso”. o senhor, ajudava a esposa a subir devagar cada degrau, e aí eles desceram, sem dizer uma palavra e saíram juntos de mão dada, enquanto o motorista tinha apenas pressa de sair dali. e pensei então no cuidado daquele casal, em como deviam se amar, pra naquela idade, se acompanharem ao médico, provavelmente enfrentando uma longa viagem, de mãos dadas. “isso é amor”, tive certeza. eu sempre vejo os cobradores sonolentos e os motoristas cansados às 18h. e todos eles têm uma aliança dourada na mão esquerda. imagino que a vida deva ser mais fácil se tem um colo te esperando quando você chega em casa depois de um dia daqueles. e então uma senhora, também mais velhinha, fez sinal e com muita dificuldade carregou uma mala (que eu posso jurar: caberia ela mesma lá dentro), ajeitou lá dentro de forma que não caísse. ao mesmo tempo que ela fazia isso o motorista levantava e tirava a mala dela, e ela dizia: “eu preciso ir pra 207!” e ele falava: “eu não passo lá não, esse aqui não vai pra lá não”. a velhinha, quase chorando dizia que sua filha tinha dado aquele número, que ela deveria pegar o 22 pra chegar na 207. e foi deixada lá, sem uma palavra a mais.
porque ele não avisou que ali naquela mesma parada, passa um outro ônibus, que desce na porta do lugar onde ela queria? alguém tem um coração sobrando pra dar pra esse moço, por favor?! me inclinei pra ver se ele tinha o ouro em um dos dedos e vi que sim. repensei minha reflexão anterior. acho que amor não é o colo te esperando depois de um dia cansativo, proque ele o tinha, mas certamente não sabia o que era amor. amor não deixaria ele tratar essas duas pessoas daquela forma. o amor se reconheceria no outro, e ele não reconheceu uma mãe ao encontro da filha, nem um casal querendo o descanso depois da consulta médica.
e então repensei novamente, dessa vez os meus conceitos. de onde vem o amor? ele nasce culturalmente, depois que nos leêm contos de fadas, ou poemas de drummond? nasce nos abraços dos pais, na reconciliação diária com os irmãos? é genético, ou associado ao caráter? freud explicaria o amor? e com isso, como saber que o que eu sinto é amor? google é deus, procurei:
amor s.m.,
inclinação da alma e do coração.
inclinação fig.,
propensão; vocação; disposição.
tem que ter vocação pro amor. concluí que amar é predisposição. e então um outro pensamento tomou conta de mim: porque demônios eu não tive predisposição pras drogas? ou vocação pra ser cantora-bailarina-atriz? life’s unfair, chorei.