Filed under: pop art
nos difíceis tempos em que é preciso lidar com os mais diferentes tipos de gente entediante e ainda tomar cuidado extra pra não se tornar um deles, eu comecei a pensar: “sou obrigada?” e não, não sou obrigada a aturar essa gente, passa amanhã. mas dou uma segunda chance, como sempre, porque meu coração é grande e cheio de amor e paciência é uma virtude e é um exercício diário não depositar todas as minhas esperanças no apocalipse , já que segundo a lei de murphy ele não virá e eu terei que aguentar essa total falta de perspicácia e bom senso generalizada por mais alguns bons anos. então resolvi pedir a ajuda do meu grande amigo e ídolo das mentes menos favorecidas: william shakespeare da internet. juntos, apresentaremos as diferenças, as sutis diferenças, que você aprende depois de um tempo – e nunca mais repetí-las, pra boa conservação da minha mente.
o cansado e o cansativo. reclama de ir trabalhar. reclama de ir malhar. reclama que acabou o carnaval. reclama que as pessoas assistem bbb. tá cansado de tudo e todo mundo tá cansado dele. todo mundo tá cansado da vida, sabe? acho que a existência humana tá meio que saturada, mas não há muito que se possa fazer com isso. chega um tempo em que só resta viver e parar de encher o saco das pessoas com isso. achar tudo insuportável o tempo todo, ok. achar tudo insuportável o tempo todo e ficar torrando minha cabeça com isso: por que não morre?
o poeta e o poeteiro. carlos drummond de andrade foi poeta. fernando pessoa era um puta poeta. hilda hilst, pablo neruda, ferreira gullar, baudelaire. esses eram poetas. procurar no pensador por “frase+amor” não te dá um lugar nessa lista, faz de você um poeteiro e isso é muito 1995, quando claudio heinrich ficou conhecido pela frase mais longa que já proferiu em rede nacional: eu li num livro. e ele nunca mais foi visto. é que saiu de moda escrever frases de efeito sobre o cotidiano em qualquer rede social quando fabrício carpinejar abriu uma conta no twitter. essa coisa de entrei-causei-vazei. comentem orkutizou, não cola mais não. e é sério. principalmente se a sua frase de efeito não for decorrente de uma epifania, se for muito óbvia ou pior, se já tiver sido dita por outra pessoa. eu ainda fico na dúvida se desprezo mais o poeteiro que faz esse tipo de divagação ou a pessoa que curte e ainda completa com “nossa, falou tudo!”
o antenado e o alienado. coisa boa é poder personalizar sua página inicial, né? o antenado abre 50 abas e vê o que acontece no mundo, lê uns livros, ouve rádio, faz a quantidade normal de conexões cerebrais diárias. o alienado lê o g1 de manhã e vê cqc de noite pra ver se liga pelo menos o tico e o teco. e na terça chega lá falando da xuxa, do caso cachoeira, da ciclovia, do metrô que ele não usa. é bem o tipinho que tira as fotos dos ônibus fora da faixa exclusiva e fica mostrando pra você na mesa do bar pra iniciar um papo polêmico, que compartilha aquela imagem da carolina dieckmann dizendo que a polícia encontrou os caras que hackearam o telefone dela mas não encontram os pedófilos. mas ainda assim querem fugir da blitz depois de encherem a cara, fumam maconha todo dia - malzae, nada contra, mas é ilegal e tal – e acham massa não serem pegos. bitch, please!
o ativista e o chato apenas. eu sou feminista, contra o racismo, a homofobia, a pedofilia, sou a favor de aborto e não gosto que maltratem animais. vez ou outra alguém chama sua atenção sobre aquela atitude ou termo inapropriado e até faz você repensar o que foi dito. e vez ou outra vem o chato te chamar quinhentas vezes pra marcha contra a corrupção, te marcar nos posts com fotos de cachorros mortos, nunca deixar passar uma lixeira automática sem relembrar o caso do reitor da unb, iniciar uma discussão interminável na qual ele é o mais politicamente consciente e você o aluno rebelde. é muito comum encontrar ele dizendo que “você tem que se engajar na política! já diria platão que quem não gosta de política será governado por quem gosta! isso é ser cidadão mimimimi rorizismo mimimimi maluf mimimimi socialismo”. a única coisa que eu tenho que fazer é me segurar pra não dar um tiro na sua cabeça cada vez que você abre a boca. gosta de rimas, de frases geniais de grandes filósofos. maquiavel é o seu pastor e nada lhe faltará. vou deixar aqui o meu recado/dica pra quem me inpirou: “alô candidato, você me enche o saco!”.
me acordem ali na próxima era glacial por favor.
Filed under: Uncategorized
dia desses eu tive que assistir a uma discussão que entre outras coisas muito relevantes as pessoas disputavam quem sabia mais formas de respirar. ou coisa que o valha. demonstravam e debatiam a mecânica da respiração como se fôssemos chegar a algum lugar com aquilo, enquanto isso, num outro canto da sala eu só procurava um jeito de fazer aquelas pessoas pararem de respirar pra sempre.
não é muito diferente no resto da vida, sabe? ando me cansando com a disputa pra saber quem bebe mais, quem bebe menos, quem dorme mais tarde, quem acorda mais cedo, quem tem mais piadinhas engraçadíssimas, quem assiste menos tv, quem lê mais livros, quem lê mais livros de autores clássicos, quem lê mais livros de autores marginais, quem fica menos tempo sem sexo, quem fica mais tempo sem sexo. eu até que sou bem a favor de celebrar a vida nos seus mínimos detalhes, que bom que é estar vivo e amar as flores, os passarinhos, os raios de sol. bonitinho, mas surreal. porque se você se sente plenamente feliz nesse mundo atroz ou você é muito falso ou muito alienado ou fez amarração braba que nem nossa senhora desatadora dos nós desamarra. mas o caso é que ser insatisfeito e aceitável, se frustrar é normal. fazer de cada fio de cabelo nascido uma vitória suprema sobre todos os demais seres no planeta é um saco.
ninguém tá interessado de verdade se você achou aquela banda francesa que é o máximo. na verdade, com a internet, se alguém gostar de banda francesa ela vai lá e procura. eu quero dizer, eu tenho o google, entende? quando eu saio com meus amigos a coisa que eu menos quero é alguém medindo todos os meus movimentos pra comparar com os do vizinho do tio do papagaio de quem quer que seja.
Filed under: pop art
na primeira parte, você aprende a usar o vaso sanitário sozinho antes de definir qualquer coisa viva. na segunda parte você apenas não define um gênero que não é o seu.
que os avisos de exigência de maioridade para acessar as redes sociais seriam ignorados, todo mundo já sabia. mas aí um homem encontra uma mulher e coloca a sementinha do machismo dentro dela e nasce um machisitinha com bochechas reluzentes. quinze anos depois, ele tá lá postando imagens machistas.
acontece que eu cansei. é claro que como tudo na vida, isso não veio de graça. foi preciso um namorado misógino, um pai machista, uma profissão “tipicamente masculina” e muita cabeçada na parede. eu tive mil e um motivos pra todas essas coisas acontecerem mas aí fui abstraindo cada vez mais e sobrou apenas uma palavra: preconceito. e no início pareceu simples, porque agora eu tinha uma única questão a combater.
eu pareço repetitiva de tanto explicar que essa ou aquela pessoa não se encaixam mais na minha vida porque são misóginas. que quando um ser humano mostra uma opinião equivocada em relação às mulheres, quando ele se mostra taxativo quanto às “coisas de mulher”, eu não consigo ver nenhuma diferença do hitler que mandou queimar judeus ou do malan promovendo o apartheid. e o mais irônico é que por isso, eu é que recebi a alcunha de nazista. sim, porque o nazista é o intolerante, o que leva seu ódio até as últimas consequências, o que limpa o mundo daquilo que considera a escória. e quem bate em homossexual não é intolerante, quem acha que mulher que usa minisaia merece ser estuprada não está levando nada às últimas consequências e abafar os movimentos de quem vai contra essa corrente não é querer livrar o mundo de ninguém. mas aparentemente ninguém cansou de escutar. me parece que um pouco mais do que isso, ninguém sequer prestou atenção.
eu fico me perguntando como é que alguém quer ser levado a sério na marcha contra a corrupção, como é que alguém quer ter seus direitos atendidos quando faz greve, se na primeira oportunidade age tão erroneamente quando aqueles que critica nesses movimentos. se você grita tão alto mas tão alto pra falar com alguém, é natural que aos poucos os outros ao redor comecem a achá-lo irritante o suficiente pra ignorar o que você diz. principalmente quando você não sabe nada sobre o que tá dizendo. quantas vezes você saiu do trabalho depois das 22h e apesar de ter ônibus circulando você pagou um táxi pra voltar pra casa por medo? quantas vezes você perdeu uma promoção porque ‘tavam precisando de alguém “que entrasse com o pé na porta” e seu sexo não é visto como agressivo o suficiente? quantas vezes você usou um biquíni pequeno demais pra alguém direito, grande demais se você quiser arrumar um casamento? quantas vezes seu cabelo foi modificado, seu estilo podado, o tom da sua voz questionado, a forma como você senta criticada, sua auto-estima derrubada, seu choro ridicularizado, seu corpo avaliado, seu caráter ignorado? quando você responde zero para uma única questão dessas, você perde o direito de compartilhar uma imagem dessas. você simplesmente não tem o direito de dizer quem eu sou.
se eu fosse explicar com maçãs, digamos que quando todas as maçãs vermelhas se acham mais suculentas do que uma maçã verde, você consegue entender porque a verde não quer ficar no mesmo cesto que elas, porque o que as maçãs vermelhas fazem é crime. pois bem. e quando você me joga no lixo por eu ter nascido sem semente é o quê?
Filed under: expressionismo
por vezes me envergonhei de desejar o mal. pedi desculpas depois de, no trânsito, silenciosamente esperar que um motorista sem caráter tivesse um prejuízo muito grande num acidente. rezei, às vezes sem nem saber porquê, quando reclamei de ter uma vida fodida sendo que nunca fui abusada, espancada, passei fome, frio, deixei de estudar. serei eu uma preguiçosa, apenas? uma vida suficientemente pesada… a quem eu quero enganar? uma vida baseada em músicos e poetas mortos chorei de arrependimento por ter involuntariamente julgado alguém baseada num preconceito. perdi tempo achando que fiz essas coisas porque sou ruim eu sou ruim, mas porque não consigo usar isso pra me beneficiar? eu devo ser ruim quando na verdade eu desejei ser castigada por cada passo em direção ao inferno. quis chegar logo lá, encarar o diabo e perguntar “é só isso que tem pra hoje?” eu não saberia lidar com a miséria. o que eu fiz pra isso? um cilício, uma consciência suficientemente treinada, um cilício… afinal, como mensurar uma dor? qual a diferença da dor invisível e solitária e a dor causada pelo sistema pedi por tantas coisas incuráveis e dolorosas das quais não tenho o menor conhecimento que não saberia contar, só pra ter a quem ou o quê culpar. mas o castigo me foi dado sem que eu me desse conta: uma vida suficientemente dolorosa pra que eu não aguente mais, uma consciência suficientemente treinada para que eu não saiba me livrar dela. vendo teu (teus? são inúmeros!) vulto que desaparece na extrema curva do caminho extremo
Filed under: minimalismo
“me desculpa, eu não quis te assustar. eu vim até você porque hoje eu me vi num reflexo e também me assustei. um senhor foi rude e disse coisas muito duras pra mim. eu não o culpo, eu não pude discordar… hoje eu tentei levar uns carros, eu pedi pra lavar louça ou o chão de um restaurante, mas não pude. porque eu comecei essa campanha, pão de queijo nunca mais, e meu objetivo é fazer de tudo pra conseguir um prato de arroz e feijão pro jantar”
e foi assim que o desconhecido encontrou meu ponto fraco.
Filed under: pop art
das perguntas sem resposta, acho que a que me faço com mais frequência é onde é que eu estava? hoje cedo na receita federal eu fui a terceira pessoa a chegar. peguei minha senha, pfn3, procurei uma cadeira e sentei. olhei pela janela pelo que pensei serem apenas alguns segundos, tentando adivinhar como seria o resto do dia. quente? teria sombra? minha água estava esquentando no carro? e então a tv avisou: pfn5. eu não vi aquelas pessoas entrarem, eu não ouvi a tv me chamar repetidas vezes, onde é que eu estava? onde é que eu estava? assim mesmo deve ter sido no dia em que todas as pessoas ao meu redor foram chamadas pra receber a pílula do esquecimento e eu perdi minha vez. não fui vacinada contra o mal do século e agora tô aqui sozinha. e me sentindo sozinha, o que é bem pior. não desaprendi a amar o próximo, não desaprendi de me apaixonar por um sorriso que chega até mim, pelo abraço que me aperta quando eu preciso – mesmo que eu não saiba disso -, pela coragem de admitir um erro, uma opinião, um sentimento honesto qualquer.
e vieram os últimos dias… quando eu percebi que não só desaprenderam a amar como também esqueceram o que é o amor. quando o amor se tornou uno e restrito (a restrição do amor me dói). quando foi que o amor se tornou uma coisa tão rara que adquiriu valor de preciosidade? quando o amor passou a ser privilégio de uma única pessoa, não podendo ser dado a uma pessoa bonita, a um dia feliz, ao som dos passarinhos na janela, a um macaco que vê a luz do sol pela primeira vez em anos? eu não acho que o amor seja uma jóia ou algo a ser preservado. acho que ele é auto suficiente e inesgotável mas tá minguando dentro da gente, porque a gente não tá mais usando ele. porque a gente não pode mais usar ele. amor virou sinônimo de fraqueza, e eu simplesmente não entendo onde diabos eu estava quando isso aconteceu. chegou esse tempo em que se luta contra a banalização do amor, como se ele tivesse que ser guardado pra alguém especial, desprezando todas as coisas especiais e todas as pessoas com alguma coisa especial que tão por aí também, às vezes sem nem saber o que é que elas têm guardado tanto. a gente tem guardado amor por tanto tempo e tão escondido que já nem sabe mais como é e onde fica. como é que esperamos reconhecê-lo e tê-lo reconhecido em nós um dia?
foi quando eu me peguei pensando no que eu escolheria caso ganhasse a oportunidade de proferir uma única frase e ela fosse sussurrada no ouvido dos sete bilhões de pessoas ao redor do globo enquanto dormem, mas tão profundamente que as fizesse pensar nisso pelo resto do dia. meu primeiro impulso foi de escolher uma coisa tão simples que pudesse ter vários significados e fosse facilmente digerida, tipo “que merda é essa?”. mas acho que tá mais fácil achar filhote de pombo do que responder essa pergunta. e então todas as pastas dos meus arquivos mentais foram sendo abertas e consultadas, uma a uma até que eu chegasse naquele ponto de indecisão que a gente desiste e deixa pra lá. e aí aquela pintura no muro sussurrou no meu ouvido enquanto eu dormia, mas tão profundamente que me fez pensar nela pelo resto do dia: mais amor por favor.
Filed under: expressionismo
e por falar nisso, andei pensando sobre gramática. se eu pudesse ser uma palavra eu seria um verbo. direto, pontual, essencial. não um verbo muito poético ou subjetivo. nada dessa coisa de “ser”, “pensar” ou “ter” porque esses prolongam a discussão. eu escolheria ser um verbo simples, do tipo “caminhar”. e eu pediria a mão de um substantivo bem bacana, tipo “calçada” e teríamos um filhote preposição. seríamos uma família feliz caminhando pela calçada. ou eu poderia ter um cotidiano solitário, como “escovar”, ora os cabelos, ora os dentes. sem uma relação muito exclusiva que é pra não desgastar. e eu fugiria de advérbios como o diabo da cruz. advérbios têm aquele efeito bigorna acme, são pesados e estão sempre acompanhados de muita responsabilidade. um advérbio é rancoroso, é petulante, não sabe o sentido de movin’ on, não deixa pra lá, é sempre cheio de si. não gostaria de me perder nos quandos, nos ondes, nos comos. porque de questionamentos essa vida de agora já tá cheia.
Filed under: minimalismo
seria legal se eu fugisse dos clichês dos caderninhos de frases, da obviedade, da breguice. mas eu quero casar com aquele bebê vestido de galo, com o novo cd do chico, com o último cara que beijei, com o porteiro que me dá bom dia sorrindo às 6h da manhã chuvosa, com aquele milkshake de ontem, com minhas amigas lindas, com aquele site de confeitaria, com o lenine, com o show do paulinho, com o history channel, com o macaco do planeta dos macacos, com minha internet rápida e com os ponteiros da balança quando eles estão cada vez mais à esquerda. essa sou eu. eu sou os olhos revirando e a auto-crítica depois de falar uma coisa sem pensar. eu sou as frases ditas em momentos inadequados. aliás, eu sou as frases ditas a qualquer momento. eu sou o aqui-e-agora. quando descubro uma banda nova digo que é a melhor coisa que já ouvi, quando assisto um bom filme tenho certeza que me sinto daquele jeito, quando gosto de um autor quero me tornar ele e quando encontro um abraço, tenho certeza que não quero estar em nenhum outro lugar que não ali.
e é claro que eu não quis estar em nenhum outro lugar por eternos três segundos naqueles braços e depois não tive vontade de voltar quando estive longe. não insisti pra voltar, não liguei, não chorei, não lamentei. foi só isso: eu tava ali, você também e de repente estávamos nós e de repente não estávamos mais. foi só isso. foi só isso? não serei leviana dizendo que foi pouco nem me equivocarei acreditando que foi muito. então acho que apenas foi. às vezes o que falta na gente é isso mesmo, ignorar o peso da intensidade. eu sei que quero você perto se você tá aqui, e longe se não tá. aprendi a não me distrair da vida que eu tenho pra pensar na que teria. nessa vida a gente acaba respirando fundo algumas vezes, levantando a cabeça, limpando o rosto e indo em frente. sempre me encontrando nuns braços, nuns abraços, numas risadas e numas dores por aí. então tá tudo bem.
Filed under: pop art
a indignação sempre esteve em mim. mas só recentemente eu decidi me juntar à outras tão indignadas quanto eu e tornei a briga pessoal mesmo. mas calma: eu prometo não mencionar as palavras patriarcado, macho ou copular uma única vez nesse post. somente porque não quero falar pra nenhuma feminista, pra nenhum masculinista. nunca li simone de beauvoir, sou n00b, não tenho autoridade pra falar de várias coisas, mas gosto de ser respeitada mesmo assim. escrevo aqui pra mim, por mim, e eu não uso essas palavras no dia-a-dia, então acho válido manter o padrão. não tô aqui pra completar o bingo de ninguém. e desde já deixo bem claro: não gostou, me processa. mas não venha me atormentar com seus comentários que eu tô indo dormir.
então eu cliquei nesse link. desde que comecei a participar de discussões feministas li muita coisa radical (dos dois lados), muita coisa intolerável, muita coisa mal interpretada e mais ainda: muita, mas muita mesmo, hipocrisia. é claro que tudo que ando aprendendo me levou a ser um pouco mais crítica com coisas desse tipo, mas cheguei naquele ponto em que se pára e pensa: quantas imagens já foram denunciadas, quantas marchas já foram feitas, quantas amizades desfeitas e a idéia continua firme? avançamos, é verdade. mas não o suficiente pra alcançarmos. e me deu preguiça.
e esse texto veio exatamente como os sermões que ouço na vida real. vestido de algo muito amigável, mas no final das contas, cagando regras e abrindo prerrogativas para penalizar quem não as leva a sério. o que na verdade é muito irônico pra um texto que aborda exatamente como mulheres devem se vestir para não sofrerem as consequências de despertar o selvagem sexto sentido. quer dizer, se a vestimenta diz tanto assim sobre uma pessoa, por que não podemos aplicar esse quesito aos discursos? e o erro aí é bem esse mesmo: o que se diz não é pra ajudar. eu me igualaria aos que critico se dissesse que não existe um mínimo de influência sobre o que os homens vão achar da minha aparência quando me visto pra sair. mas em ordem de importância, as coisas que passam pela minha cabeça quando escolho o que vestir: posso usar sem calcinha/sutiã, me aperta, minhas pernas ficam tortas, não vai aparecer a mancha de comida que eu certamente vou derramar em cima, me elogiam quando eu uso, não é calça jeans. vê? é assim que funciona. eu concordo que os decotes e mini saias saíram da balada para os escritórios e que isso é desnecessário e poderia ser evitado. tem hora e lugar pra tudo, e mais uma vez vou evitar a falsidade ao dizer que um decote bem colocado pode desviar a atenção dos pobres trabalhadores. mas um terno bem cortado tem o mesmo efeito em algumas ocasiões, e mesmo assim a gente segura a onda. eu não tenho a menor pretensão de mudar a idéia de ninguém. mas acho que tenho o dever cidadão de mostrar a importância de sair da casinha. de enxergar algo que vai além da sua sexualidade, porque nem tudo se resume à ela – e isso vale pra qualquer gênero. quando eu mostro meu corpo espero receber meu cachê em liberdade. liberdade pra dar o que eu quiser, pra quem me interessar, no caso de ela estar interessada também.
é que existe uma regra básica, crianças: mostrou uma parte do caráter, não adianta mais mostrar o resto.
p.s.1:eu cansei da retórica extrema-radical-feminista. cansei mesmo. como cansei da retórica extrema-radical-de-esquerda ou de direita. ou religiosa. ou ateia. tenho preguiça de discussões infinitas, sem praticidade, sem foco, sem propósito definido. mas tenho acesso à todos eles, obrigada. eu falo dar porque sou dessas que acha que não adianta falar pra quem já tem entendimento sobre o assunto.
p.s.2: essa parte da roupa bem cortada ser privilégio de gente rica é uma piada, né? eu vou assumir que é uma piada porque não tá fácil.
Filed under: dadaísmo

se tem uma época que a gente tem chance é a de universitário. diferentemente dos tempos de escola, você já dirige, já pode comprar bebidas, já chega depois de 2h em casa, já não vê diferença entre terças, quintas, ou sábados pra sair. eu fui uma adolescente muito comportada, considerem.
então. universidade. eu poderia ter gastado essa época lambendo o chão de um churrasco, dormindo abraçada com o cooler, dançando em cima da mesa do boteco, participando da ocupação da reitoria, ficando nua no manifesto pró geisy arruda. podia ter pegado um professor, feito dreads, tatuagem, ido pra piri, aprendido a andar de bicicleta. mas eu preferi passar meu tempo na universidade estudando e me apaixonando e obviamente me fodendo de verde, amarelo, azul, vermelho, lilás e todas as demais cores do movimento homossexual – outro que eu poderia ter participado e preferi não. e se na universidade eu me apaixonei, quando saí dela eu amaldiçoei toda essa minha ignorância.
mas hoje, vejam só, eu me rendi ao velho clichê dos amores que trazem sofrimento e do sofrimento que traz aprendizado. hoje eu cantarolei trechos de uma música e meus olhos se encheram d’água. e foi aí que eu me toquei de que além de ter me tornado mais forte, a dor também me tornou sensível. acho que foi aos doze anos, não tenho muita certeza, quando primeiro eu vi a chuva e em seguida toquei o mármore frio de brecheret. foi ali que eu me entreguei de vez. agora já não sei se poderia viver sem me emocionar ouvindo om kalsoum. sem encher os olhos de água cantarolando um samba. ou pior: eu não sei se gostaria de viver assim.





