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se tem uma época que a gente tem chance é a de universitário. diferentemente dos tempos de escola, você já dirige, já pode comprar bebidas, já chega depois de 2h em casa, já não vê diferença entre terças, quintas, ou sábados pra sair. eu fui uma adolescente muito comportada, considerem.
então. universidade. eu poderia ter gastado essa época lambendo o chão de um churrasco, dormindo abraçada com o cooler, dançando em cima da mesa do boteco, participando da ocupação da reitoria, ficando nua no manifesto pró geisy arruda. podia ter pegado um professor, feito dreads, tatuagem, ido pra piri, aprendido a andar de bicicleta. mas eu preferi passar meu tempo na universidade estudando e me apaixonando e obviamente me fodendo de verde, amarelo, azul, vermelho, lilás e todas as demais cores do movimento homossexual – outro que eu poderia ter participado e preferi não. e se na universidade eu me apaixonei, quando saí dela eu amaldiçoei toda essa minha ignorância.
mas hoje, vejam só, eu me rendi ao velho clichê dos amores que trazem sofrimento e do sofrimento que traz aprendizado. hoje eu cantarolei trechos de uma música e meus olhos se encheram d’água. e foi aí que eu me toquei de que além de ter me tornado mais forte, a dor também me tornou sensível. acho que foi aos doze anos, não tenho muita certeza, quando primeiro eu vi a chuva e em seguida toquei o mármore frio de brecheret. foi ali que eu me entreguei de vez. agora já não sei se poderia viver sem me emocionar ouvindo om kalsoum. sem encher os olhos de água cantarolando um samba. ou pior: eu não sei se gostaria de viver assim.
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eu sou assim. eu fui lá e imaginei uma casa, com quintal, cachorro. os azulejos coloridos na varanda, a rede no final da tarde. de manhã eu praticava ioga, respirava o ar puro, sentia o cheiro de café fresquinho vindo da cozinha. minha coleção de sapatos de um lado, 5 gavetas quase cheias do outro. imaginei almoços de domingo, filminhos de sábado, e os abracinhos de todos os dias. dançar com vinho e amigos até tarde. e decidir colher alguma fruta no quintal pro suco que curaria minha ressaca, já que vinho faz isso comigo. e é claro que eu imaginei o sexo porque de quê me adianta uma casa grande com quintal se não se pode fazer sexo na escada, na varanda, na rede, no balcão da cozinha, no tapete de ioga? e um ofurô.
dom cobb se giletou no recalque porque precisou ir três sonhos lá dentro, enfrentar a lembrança da esposa falecida e de dois amuletos pra conseguir inserir uma ideia na cabeça de alguém. mas ele, bastou ele sorrir pra mim que várias ideias se multiplicaram como baratas, simples como uma idéia, tomando conta dos meus sonhos.
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quando o dr. rey veio ao brasil trazendo sua luz e seus músculos eu ri do estetoscópio no pescoço e principalmente da cinta. mas hoje eu me olhei no espelho e vi uma cinta cobrindo todo o meu corpo. minhas roupas, que foram sendo compradas somente se coubessem a minha cinta, se a escondessem, se ninguém pudesse perceber. as fotos que tirei com vergonha, as frases que escrevi com medo, as coisas que deixei de aproveitar, insatisfeita. foram longos anos vestindo ela todos os dias, dormindo e acordando com ela, pra que ninguém visse as imperfeições que ela disfarçava. imperfeições…
eu sempre tive medo de mostrar cervejinha do domingo, a preguiça de ir pra academia na quarta, o prazer que sinto com um risoto, uma macarronada ou um pastel. e não queria que ninguém visse a forma que cada uma dessas coisas tomaram em volta de mim, por baixo na minha cinta dr. imbecil, que foi contruída com muita babaquice. não sabia viver sem ela.
uma vez o marcelo me disse que eu só dava pra babaca. deve ser verdade, porque até os 21 eu não me referia a nenhum cara com quem eu saía como homens. demorei pra perder o hábito infantil de chamá-los de menino ou garoto. acontece que de uns tempos pra cá eu tenho visto homens interessantes, tenho saído com homens bacanas. homens que, como eu, riram da cinta dr. rey e me mostraram que na verdade era ela que me fazia ter aquela forma esquisita que eu via no espelho. e me desfiz da cinta, dos anos de repressão, da culpa de ser feliz. minha bunda continua grande sim, mas foi quando me livrei da cobrança alheia que percebi que o que me incomodava não era o tamanho dela, mas as pessoas que a encaravam. e fiquei sem entender por quê é que com tantos ipês florescendo na cidade, algumas pessoas tinham que justamente olhar pra minha bunda, que tanto odeiam.
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estávamos lá reunidos, mas não tínhamos começado. era aquele preparatório, eu estava organizando as taças enquanto alberto abria o vinho. álvaro recusou e pediu água, o whisky de quinta ainda estava vivo e ativo na memória. ricardo contou uma piada que ouviu por aí e gargalhamos juntos. coloquei as taças em cima da mesa, nos servimos, e estávamos prontos pra começar. “algo leve”, álvaro pediu, “minha cabeça não está das melhores”. mas antes que pudéssemos sugerir o tema da noite, uma melodia suave, quase imperceptível percorreu a sala e subiu pela espinha. era ele: piazzolla chegou lançando uma única carta em branco sobre a mesa. não havia nada escrito mas todos sabíamos o que significava. e não poderíamos fugir, era como o elefante cor-de-rosa na sala. um elefante cor-de-rosa dançando tango. ele sorriu e se acomodou para ver até onde iríamos.
eu fui logo enchendo o copo mais uma vez, não queria ter que iniciar aquela conversa. mas antes que eu pudesse dar o primeiro gole ricardo quebrou o silêncio:
- se penso ou sinto, ignoro quem pensa ou sente
- mas pensar uma flor é vê-la e cheirá-la… interrompeu alberto.
- ser o que penso?! penso tanta coisa! e há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! então serei sempre o que não nasceu pra isso. serei sempre o que tinha qualidades…
- álvaro, tens sol se há sol, ramos se ramos buscas, sorte se a sorte é dada.
- é disso que falo. não sou nada, nunca serei nada. não posso querer ser nada, e a parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo.
- ora, álvaro! somos demais se olhamos em quem somos. ignorar que vivemos cumpre bastante a vida!
- não, ricardo, não posso. chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, vejo os cães que também existem, e tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, e tudo isto é estrangeiro, como tudo. vivi, estudei, amei e cri. e hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu… vês o quê ele me pede, alberto?
- o que vejo é que não basta abrir a janela para ver os campos e o rio. não é o bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. é preciso também não ter filosofia nenhuma.
- te acalmes, álvaro! quero dizer que o que sentimos – e não o que é sentido – é o que temos.
- pois então o que devo fazer? existir, apenas? como um lagarto a quem cortam o rabo? que te parece essa idéia?
- que importa isso a mim? se eu pensasse nessas cousas, deixaria de ver as árvores e as plantas… entristecia e ficava às escuras. e assim, sem pensar tenho a terra e o céu.
- bah…! estou cansado! quero sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados, ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo!
foi então que de um canto, ouviu-se o arrastar de uma cadeira. fernando, que por enquanto apenas observava a tudo, levantou-se calmamente, serviu-se de mais uma dose, pousou a mão em meu ombro e calou-me de todas aquelas vozes: “menina, não tente entender. viver é não conseguir”.
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dessas coisas que a gente não sabe ao certo onde foi que começou, como foi que tomou tais proporções e provavelmente em pouco tempo vai esquecer quando foi que terminou. é como durante o inverno caminhar sem rumo e acabar se embrenhando no meio de um labirinto longo e de paredes muito altas, com uma inclinação imperceptível para olhos não-fisicamente treinados. as mudanças climáticas acontecem lentamente e de forma muito sutil, então você acaba se adaptando facilmente, como aquele sapo na panela da fábula. durante o percurso toda a sorte de distrações chamam a sua atenção e evitam o desvio ou o retorno: uma música de fundo muito sedutora, algumas portas fechadas,algumas entreabertas, algumas totalmente escancaradas, a decoração peculiar. finalmente, lá embaixo, as paredes se abrem num grande salão também com muitas portas, essas com grandes e ostensivos cadeados. se olhar pra cima, é possível notar as grades sem emendas, resultantes de uma forja paciente e cuidadosa, contornando toda a sala e se unindo lá no teto. incontáveis espelhos em todos os cantos chamam a sua atenção de modo que aos poucos você perde a capacidade de diferenciar os reflexos da realidade. aquele ambiente supre todas as suas necessidades (até as que você desconhecia), se tornando seu novo mundo. até que você perceba que está perdido leva dias, meses, às vezes anos, às vezes encarnações. os reflexos se encarregam de manter todas as experiências vividas ali sempre por perto, tornando tudo muito acolhedor.
mas um dia chega o verão com o sol estendendo seus raios do topo do universo, e um deles entra por um corredor e ao ver que este não o refletiu de volta, você se lembra de como chegou ali e percebe a saída. como toda ladeira, embora pouco íngreme, você sente mais dificuldade com os joelhos sobrecarregados, os músculos fatigados, você é obrigado a procurar sozinho tudo aquilo que é essencial à sobrevivência. faz várias paradas, pensa em voltar – e até retrocede em alguns momentos – inúmeras vezes, mas por curiosidade ou teimosia, acaba continuando. depois de dias, meses, anos, às vezes encarnações, quando você menos espera o céu se abre. os olhos precisam piscar repetidamente pra assimilar todas aquelas cores novamente, até a água tem outro gosto e a caminhada lhe fez mais disposto. até que você olha pra trás com medo do reajuste, da incerteza de estar livre, da solidão, mas os portões daquele labirinto já foram fechados e os ventos lá por perto são perigosos demais, evitando a aproximação.
depois de algumas voltas, o inverno retorna e você reencontra aquele velho companheiro. arrisca alguns passos para o interior dele, mas a música é a mesma, todas as portas já foram investigadas e todos os caminhos desbravados. então um longo corredor não é suficiente, e só de pensar no quão cansativo será o retorno a coluna já avisa que não é a mesma, as coxas tremem, logo agora que os pés se recuperaram dos calos.
porque saber o caminho de volta muda tudo.
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é quando todas as coisas sofridas do mundo começam a fazer todo o sentido. quando existe a dúvida se pablo neruda alguma vez ouviu falar de você, e de vocês, e de toda essa dor renatorusseando dentro do peito.
e a morte, essa que todo mundo morre uma vez na vida (e alguns morrem muitas outras), é o único presente. é dessas coisas que você não sabe se sonhou ou se alguém te contou, mas é real em algum lugar, e vai crescendo e crescendo e já não se sabe mais se a morte é que é a vida, se é prisão ou salvação, porque ficamos mais tempo dentro dela do que de qualquer outra coisa. e isso porque nem me ocorreu neruda falando que saudade é “o gosto de morte na boca dos que continuam”. morrer deve ser ato constante dos que amam, e começo a crer que não é possível amar em vida. amor é coisa demais praqueles que não têm a morte dentro de si, talvez porque se a vida é essa coisa mesquinha a que tenho observado, não cabe tanta coisa boa nesse corpo falho de humano. aprendi que antes do descanso eterno devemos atingir níveis divinos de todas as virtudes e não me vejo praticando tanta benção em nenhum outro momento senão quando amei de verdade.
e por falar em morte, eu que sempre quis saber qual é a onda dessa coisa de criar palavras, penso que é possível que assim como os daltônicos é que veêm a realidade, algum espírito de porco deve ter trocado morte e vida só pra curtir com a minha cara. um dia, vou ser dona das palavras: vou trocar solidão por companhia, amor por desprezo, dor por carinho e preguiça por sexo. e aí tenho certeza de que o mundo inteiro vai ser mais feliz por ter tudo que dizem que é preciso.
*vinícius de moraes


