na coqueteleira


fogo-fátuo
March 2, 2012, 2:22 pm
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por vezes me envergonhei de desejar o mal. pedi desculpas depois de, no trânsito, silenciosamente esperar que um motorista sem caráter tivesse um prejuízo muito grande num acidente. rezei, às vezes sem nem saber porquê, quando reclamei de ter uma vida fodida sendo que nunca fui abusada, espancada, passei fome, frio, deixei de estudar. serei eu uma preguiçosa, apenas? uma vida suficientemente pesada… a quem eu quero enganar? uma vida baseada em músicos e poetas mortos chorei de arrependimento por ter involuntariamente julgado alguém baseada num preconceito. perdi tempo achando que fiz essas coisas porque sou ruim eu sou ruim, mas porque não consigo usar isso pra me beneficiar? eu devo ser ruim quando na verdade eu desejei ser castigada por cada passo em direção ao inferno. quis chegar logo lá, encarar o diabo e perguntar “é só isso que tem pra hoje?” eu não saberia lidar com a miséria. o que eu fiz pra isso? um cilício, uma consciência suficientemente treinada, um cilício… afinal, como mensurar uma dor? qual a diferença da dor invisível e solitária e a dor causada pelo sistema pedi por tantas coisas incuráveis e dolorosas das quais não tenho o menor conhecimento que não saberia contar, só pra ter a quem ou o quê culpar. mas o castigo me foi dado sem que eu me desse conta: uma vida suficientemente dolorosa pra que eu não aguente mais, uma consciência suficientemente treinada para que eu não saiba me livrar dela. vendo teu (teus? são inúmeros!) vulto que desaparece na extrema curva do caminho extremo 



sopa de letrinhas
January 19, 2012, 3:10 am
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e por falar nisso, andei pensando sobre gramática. se eu pudesse ser uma palavra eu seria um verbo. direto, pontual, essencial. não um verbo muito poético ou subjetivo. nada dessa coisa de “ser”, “pensar” ou “ter” porque esses prolongam a discussão. eu escolheria ser um verbo simples, do tipo “caminhar”. e eu pediria a mão de um substantivo bem bacana, tipo “calçada” e teríamos um filhote preposição. seríamos uma família feliz caminhando pela calçada. ou eu poderia ter um cotidiano solitário, como “escovar”, ora os cabelos, ora os dentes. sem uma relação muito exclusiva que é pra não desgastar. e eu fugiria de advérbios como o diabo da cruz. advérbios têm aquele efeito bigorna acme, são pesados e estão sempre acompanhados de muita responsabilidade. um advérbio é rancoroso, é petulante, não sabe o sentido de movin’ on, não deixa pra lá, é sempre cheio de si. não gostaria de me perder nos quandos, nos ondes, nos comos. porque de questionamentos essa vida de agora já tá cheia.



vocês não entendem nada
December 3, 2011, 12:19 pm
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 naquele dia em que eu respondi pra você, você entendeu que eu era fácil. quando você chorou de amor e eu disse que ia passar, você deduziu que eu sou desapegada. na hora que eu deixei aquela festa com a desculpa de ter outro compromisso, você entendeu que eu ia encontrar um cara, provavelmente aquele que você me viu conversar noutro dia. quando eu atrasei pra chegar à aula de manhã, você riu da minha cara de ressaca e disse que eu precisava parar de ir pra gandaia durante a semana.

eu queria que fosse fácil assim.

mas você nem imagina que dois meses antes daquele dia eu já fantasiava com seus ois, que quando eu disse que ia passar, repeti essa frase à exaustão como um mantra por dias e dias durante meses pra me convencer que aquela dor não era pra sempre. que meu outro compromisso era sair o quanto antes de perto de você e daquela mulher infinitamente mais interessante e absurdamente mais bonita que eu, e chegar em casa a tempo de chorar assistindo a reprise de de repente 30. e que aquele cara do outro dia era meu irmão, meu amigo gay ou uma potencial pegação que eu arruinei contando o quanto queria estar com você e como você me desprezava. você não faz idéia que a minha gandaia foi sair pra beber com as amigas, duas horas depois olhar o celular sem nenhuma chamada perdida e ir pra casa ouvir gal costa até 4h da manhã. bêbada. e escrever num blog melodramático.

você não entende que eu passei minha adolescência escolhendo os presentes e escrevendo as cartas dos namorados das minhas amigas, que eu conto nos dedos de uma das mãos os homens com quem fui fácil e que naquela noite, eu não acordei do seu lado não porque não quero intimidade, mas porque senti vergonha de ser pega te olhando dormir.

você só entendeu quem eu estava, não quem eu sou.



morrer um dia de cada vez
November 11, 2011, 1:27 pm
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“você tem duas alternativas”, disse a vida.

eu devia ter 6 ou 7 anos mas me lembro claramente quando, depois de propor uma escolha sobre alguma coisa – qualquer coisa – pro meu irmão, eu completava com “uma das duas coisas ou então você morre. ou o mundo acaba. ou todas as pessoas que você ama morrem.”. e eu lembro de ter plena consciência de que aquela escolha seria impossível se fosse real, que seria uma situação desesperadora. e eu, libriana que sou, me fiz essa pergunta mentalmente durante todos esses anos, sempre que precisava sair de cima do muro. muitas das vezes eu escolhi por impulso, por desespero, por medo. em outras eu teria matado todas as pessoas que eu amo e me escondido num buraco bem fundo depois.

sabe a piada do moço que espera a salvação da enchente em cima do telhado mesmo aparecendo três botes e acaba morrendo afogado? pois bem. o primeiro bote estava indo pra ilha do desapego. na ilha do desapego você não sabe direito o nome das pessoas nem de onde elas vieram e não se importa muito com isso, na verdade. porque na ilha do desapego você só paga impostos caso se importe com alguém. o segundo bote estava indo pros montes conformados, também conhecido como é-o-que-tem-pra-hoje e isso é auto-explicativo. o terceiro e último bote ia pro vale da desistência, que fica muito ao sul e é frio e as pessoas apenas existem e amaldiçoam os habitantes das outras terras, mas rezam toda noite para que um desapegado o convide pra festinha de sábado.

a vida me deu opções e eu não soube escolher. eu não quis acreditar que não existia uma quarta, e eu não pude aceitar que era aquilo. que era aquilo. eu nunca saí do meu telhado mas vi as paisagens mais bonitas num olhar, ouvi os sons do mundo inteiro numa gargalhada, senti os sabores de tudo que foi vivo um dia. e por essa ousadia, eu pagaria o preço de não estar em lugar nenhum, de não ser reconhecida nas ruas, de nunca pertencer.

e todos os dias esses botes voltam pra salvar minha vida. mas se é essa a salvação, eu escolho morrer.



me disseram que solidão é sina e é pra sempre¹
August 9, 2011, 2:40 pm
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não deve ser fácil conviver com essa pessoa que vai dos 13 anos de festa aos 80 de rabugice num piscar de olhos. que amanhece pollyana e anoitece santiago. que passa as tardes doendo a estranheza do longo período de seca do cerrado, a falta de senso alheia, o próprio excesso de percepção.

não é simplesmente o clichê de ter muita gente em volta de você mas nenhuma do lado de dentro. vai além de não ter uma companhia pra ir ao cinema. é ir carregando tanta coisa lá dentro, ir preenchendo todos os espaços com o que vê, o que sente, o que outros veêm, o que outros sentem… é ir empilhando livros, frases soltas, aquele pôr-do-sol alaranjado do fim do dia e que acontece numa época específica do ano. é amontoar pelos cantos as músicas, os beijos, os abraços, os filmes, os sabores, os olhares e as manias da infância. e quando por descuido o vento invadir por uma das janelas e levantar qualquer aroma, é sentir saudade. é aceitar que não se pode admirar o mundo com suas belezas e atrocidades sem lembrar a todo momento que cada escolha é uma renúncia. e mesmo assim escolher o lado de dentro.

no lado de dentro é quase impossível caminhar sem esbarrar em alguma quina mal posicionada ou tropeçar numa ponta solta. no lado de dentro as coisas são meio desordenadas e malacabadas. é preciso se esgueirar entre as milhares de coisas que de longe parecem só um amontoado de lixo (o que explica porquê de longe você não se sentiu impelido a se aproximar) e então achar um cantinho pra olhar de perto, pra aos poucos ir retirando o que já não presta mais. mas antes que você consiga pensar em levar uma cadeira onde você possa relaxar, uma cama onde possa descansar e até trazer um pouco da sua bagunça também, você tem que caber e sobreviver do lado de dentro. e pra isso seria preciso lidar com toda essa preguiça de vasculhar a bagunça, quebrar algumas peças, sujar um pouco as mãos e muito possivelmente adquirir uma alergia. só que não existem tantos espíritos aventureiros por aí como se imagina. é preferir o lado de dentro, o lado infinito, o seu e o dos outros. e nunca mais bastar.

¹prosa patética – viviane mosé


passando dessa pra uma melhor
June 1, 2011, 12:32 am
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uma das poucas frases que certamente todas as pessoas vivas já ouviram ou vão ouvir é que a única certeza que a gente pode ter é da morte. e durante muitos anos eu pensava que se tratava apenas de abotoar o paletó, vestir o casaco de madeira, bater as botas. mas aí alguns anos atrás eu conheci uma outra morte, essa que eu falo tantas vezes, essa que eu morro tantas vezes. e por isso eu diria que existem ao menos 4 certezas na vida (ou 5, como diria o poeta, se você incluir que com certeza vai ter insônia uma vez na vida e vai assistir emanuelle): a de que ao menos uma vez você vai se sentir mais vivo do que jamais imaginou, a de que em seguida vai ver toda essa vida minguar até sobrar só o suficiente pra terceira certeza, que é a de que você vai renascer – e nem adianta ficar muito animadinho porque this problem gonna last more than the weekend -,  e aí sim, vai desencarnar e virar comida de minhoca ou adubo de flores, dependendo da qualidade do produto.

e pra mim chegou o grande dia, esse em que você entrega seu coração pra outro ser humano cujo passatempo predileto é partí-lo em pedaços cada vez menores. só que diferentemente da carne, o coração de amor custa muito a se regenerar. daí minha ignorância me levou a outro equivoco sobre a morte, ao achar que pra passar eu precisava colar todas as partes nos seus devidos lugares pra que eu renascesse. e depois de muita tentativa eu vi que não tem conserto. acho que coração é nem espelho, porque quando quebra na verdade só se multiplica em vários outros menores mas com a mesma capacidade de refletir. e aí acho que eu posso dizer que você perde tempo achando que aquele ser humano lá do início tinha tirado todo o amor que você tinha, mas na verdade você pode amar muitas vezes mais e melhor e ao mesmo tempo e várias pessoas.  vai ver é por isso que dizem que quando a gente morre a gente passa dessa pra uma melhor.

e a morte, que só se conhece depois de viver, vai ter que conviver com o fato de que a outra morte também é certa, mas no caso dela só se vive depois de conhecer.

eis o malandro na praça outra vez caminhando na ponta dos pés – chico buarque



i am alice’s cat
March 21, 2011, 12:34 am
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“‘vem por aqui’ – dizem-me alguns com os olhos doces”. é claro que a vida é uma sucessão de escolhas e existe essa infinidade de caminhos à sua frente, esperando para serem refeitos. você só tem que optar por um deles, um desses que já foi traçado e te dão a certeza de aprender com os erros alheios. mas quem sabe decida caminhar na areia, onde as ondas apagam o passado em intervalos caóticos. quando desconhecemos o destino a estrada parece muito mais longa, o sol mais quente, a chuva mais intensa, a ladeira mais íngreme.

não trapaceio o destino com cartomantes, espíritos nem vidência. nunca soube qual santo me rege, e tudo que sei é que librianos são indecisos e dizem que tem um escorpião em algum lugar por aqui que me faz morrer de ódio ou de amor. nunca quis saber onde estou pisando, só preciso saber que são meus pés que caminham, por isso vou descalça pelo desconhecido. eu mal aprendi com os meu próprios erros, que dirá com os erros dos outros. essa filosofia seria muito útil no caso de uma linha de produção, mas quem chamou a isso de sabedoria popular esqueceu que os seres humanos têm essa coisa de reagir. inclusive eu mesma, que não sei nem se detesto ervilha ou se só não curto quando vem nas latinhas e acabo experimentando toda vez que é pra ter certeza. sim, eu já aprendi que se eu saltar do alto de um prédio eu vou morrer e foi só pela tentativa de outras pessoas, mas não custa dar uma olhadinha lá de cima pra ver se dá vertigem mesmo como dizem, né? escolhi ter o caminho mais longo – e mais crepúsculos; o sol mais quente – e a sede mais gostosa de ser saciada; a chuva mais intensa – e ótimas oportunidades de arco-íris; a ladeira mais íngreme – e mais fôlego pra correr o resto da vida. “não sei por onde vou, não sei para onde vou. só sei que não vou por aí!”



das mulheres que têm o sal na pele
February 27, 2011, 4:22 am
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um dia alguém disse que, ao deitar, caso você perceba que aquele perfume ainda está colado em algum lugar do seu corpo, não se pode enlouquecer procurando onde, nem reviver o momento exato em que aquele cheiro se misturou ao seu – porque não há francês no mundo que consiga se fixar como o cheiro de um homem à pele de uma mulher. pra não perder a viagem e reforçar a idéia, disseram também que o ideal é esperar pelo cavalo branco trazendo um príncipe em cima.

esperando pelo cavalo branco naquela praia paradisíaca e inabitada, uma dessas mulheres que inspiraram as melhores histórias já escritas, provavelmente se viu entediada, e com o mar a beijar seus pés sentiu primeiro um arrepio e depois um calor tomando conta do seu corpo. e depois amoleceu devagarzinho, comprovando que temos mesmo uma alma porque a sua certamente estava lhe sendo tirada naquele instante. e embora não conseguisse se lembrar de quantas vezes havia se banhado naquelas águas, parecia que dessa vez o sal estava penetrando seus poros, completando-a de uma forma que príncipe nenhum seria capaz. é bem possível que aí a mulher tenha perdido o medo de estar sozinha e sair pelo mundo disposta a se encontrar. seus desejos pareceram pequenos e suas dúvidas, imensas… “e não se pode condenar uma mulher por procurar respostas“, deve ter pensado.

e Lady Chatterlay não teve consciência dos gemidos e gritinhos selvagens que dava – que deu até o fim – D.H. Lawrence



coisas minhas¹
February 13, 2011, 6:22 pm
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eu não tenho culpa se um dia, naquele clube do livro que eu inventei na escola, acabou caindo um pedro bandeira nas minhas mãos. antes fosse um desses livros que ensinam a gente a ficar rico investindo em ações, porque aí eu estaria fazendo dinheiro ao invés de cartas de amor.

eu ia pra escola que era perto de casa, preocupada em não pisar nas frutinhas que manchavam minha roupa e porque sempre tive nojo de pisar em coisas molengas e ficar com aquele resto na sola dos sapatos. e tropeçava nas calçadas rachadas, nas raízes das árvores e no que mais atravessasse meu caminho. e a tia falava pra eu olhar pra frente, e não pro chão. foram anos até que eu aprendesse, mas aprendi a olhar o caminho por onde eu ia. e não sei em que parte da história se tornou mais bonito esquecer o amor em dois dias com tantos outros amores em potencial, só sei que foi aí mesmo que eu me perdi. devo ter parado pra ouvir lupicínio cantar nervos de aço ou admirar um dente-de-leão e aí passou a caravana do siga-em-frente e eu fiquei pra trás. sofri de música bonita, sofri de saudade, sofri de amor, sofri de história real e sofri de ver quem não consegue chorar. sofro por não ter conseguido nunca mais abaixar a cabeça p’ros meus próprios pés enquanto caminho, mas certamente sofro muito mais por aqueles que não conseguem levantar o olhar.

 

¹se eu chorar ao cantar essa canção, não me censurem. – lupicínio rodrigues



um privilégio ver daqui -
May 2, 2010, 11:52 pm
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como todo pseudo-cult, sou um clichê. e como todo clichê, hoje eu tenho certeza que entendi platão. entendi que a gente acende uma fogueira e se acorrenta com os olhares voltados pro fundo da caverna. mas esses dias vi sombras que carregavam objetos tornarem-se pessoas, carregando seus respectivos umbigos. eu diria mais: falaria de expectativas. dessas que a gente sempre tem, dessas que consomem, que servem como instrumento pra se livrar dos grilhões da sensibilidade. só que nem sempre a gente tá pronto pra ser livre, pra ver o mundo como ele é, com as pessoas o fazem, que nem dor de fratura exposta, quando o cérebro bloqueia tudo e você só consegue ficar em choque. nem sempre a gente tá pronto pra receber o que o mundo tem pra te dar, que é só um monte de escolhas, todas abstratas, todas incertas. nem sempre a gente consegue viver fora de todas as cavernas que construímos ao longo da – breve – vida.

algum tempo atrás talvez eu até achasse bom ficar com minhas expectativas, imaginando que o ideal é a solidão então ignorance is a bless. mas hoje não. hoje eu quero é que se foda. hoje eu quero que você se foda.

“sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão, e tudo ficou tão claro…” – engenheiros do hawaii





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